sábado, 18 de setembro de 2010

Desabafo de Luiz Carlos Prates

Sem resposta

Acho que esgotei a minha paciência, talvez curiosidade, de achar uma resposta que me tranquilize sobre a pergunta que me arde no peito: qual o sentido da vida? Já disse aqui que faz anos que entrevisto pessoas, e dependendo de quem elas sejam, pergunto sobre o sentido da vida. De todas ouço respostas infantis, sem graça, e olhe, leitora, já entrevistei gente metida...

Ontem, encontrei um velho amigo de Porto Alegre que foi padre. Desculpe-me, não foi padre, foi seminarista, andou ali, ali. Meu amigo só não foi padre porque, disse-me ele, não ouviu verdades, ouviu “histórias”. Seja como for, um “quase” padre é um sujeito capacitado para me dar a resposta às minhas angústias: qual o sentido da vida?

A resposta que o meu amigo, quase padre, me deu desconcertou-me definitivamente. É por isso que disse que acho que cheguei aos limites, não pergunto mais, a pergunta não tem resposta.

Meu amigo, quase acendendo um cigarro, só não o fez porque não fuma, disse-me, simplesmente, que não tem sentido, nada tem sentido. Bah, um tonel de água gelada nas minhas ardências.

A leitora obstinada, talvez o leitor, me aconselhe a procurar o Papa, o Dalai Lama, e eu não o farei. Eles também não têm resposta – o Papa inventa, o Dalai divaga. O que quero então dizer é que os jovens têm na própria juventude o sentido das coisas, da vida. Jovem olha para o futuro, sonha, vê – vê irrealidades que ele pode transformar em realidades. Já os mais velhos, por velhos, sabem que o horizonte colorido bem que pode ser uma disfunção das retinas ou uma loucura da cabeça.

Seja como for, se não há sentido objetivo, achemos um. Era aqui que eu queria chegar. O sentido da vida, e aí será um sentido próprio, pessoal, de cada um, é o sentido que dermos às nossas ações e sonhos. Nada mais.

Há quem diga que o sentido é fazer o bem. Não deve ser bem assim, leio nas páginas policiais crimes bárbaros cometidos por pessoas que mataram a quem as ajudou... Leio de traições de filhos adotivos, leio de desatenções de médicos que deviam ser só atenção a quem está em dor, leio que padres fazem filhos, que filhos roubam de pais...

O sentido, então, deve ser ser justo para consigo mesmo, prazeroso e definitivo. O que para mim está muito difícil. Você tem aí um “sentido” sobrando?
Coluna no Diario Catarinense, edição de 18/09

Um comentário:

Adalberto Day disse...

Grande Prates. Esse eu não perco de jeito nenhum todos os dias...grande registro Charles.
Adalberto Day cientista social e pesquisador