quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O pai de todos os piratas

O sistema de troca de arquivos BitTorrent é responsável por mais da metade do tráfego da internet -- e tira o sono dos estúdios
Poucas horas depois de estrear nos cinemas americanos, o filme Valente, estrelado por Jodie Foster, estava na internet. Eram pelo menos duas versões diferentes e ambas de qualidade discutível. Afinal foram gravadas com câmeras dentro de salas de cinema. Mas em sites como The Pirate Bay, Mininova e Suprnova isso é o de menos. Alguns só querem saber quem foi o primeiro a piratear um filme, enquanto outros correm para assistir aos lançamentos a fim de dar notas para a qualidade do áudio e do vídeo. O primeiro episódio da nova temporada de Prison Break, uma série televisiva extremamente popular da Fox, também foi parar na rede minutos após terminada sua exibição, num domingo à noite. Doze horas depois, mais de 70 000 pessoas baixavam uma cópia ilegal do capítulo -- e o número só iria aumentar ao longo da semana. Foi também nesses sites que vazaram as primeiras cópias de Harry Potter e as Relíquias da Morte, o último livro da série. E o filme nacional Tropa de Elite, que apareceu primeiro à venda em camelôs do Rio de Janeiro, não demorou para surgir em sites especializados em circular material protegido por direitos autoriais. O que era até pouco tempo atrás uma prática subterrânea está se tornando, muito rapidamente, uma atividade rotineira para milhões de internautas. Um estudo preparado pela empresa alemã ipoque indica que pelo menos 50%, e potencialmente até 90%, de todo o tráfego da internet venha de aplicações de troca de arquivos entre usuários, a imensa maioria tem dono e está circulando à revelia deles. O volume de dados é tão grande que as perdas não ficam só com os estúdios de cinema e as emissoras de TV que têm seu conteúdo pirateado. As operadoras de telefonia e TV a cabo de todo o mundo estão estudando maneiras de bloquear esse tráfego, que tem um custo enorme em infra-estrutura e não gera receita adicional.

A grande estrela entre as tecnologias de troca de arquivos pela internet é o BitTorrent, espécie de linguagem que permite a conversa e a transferência de dados entre vários computadores conectados pela internet. Traduzido ao pé da letra, o nome BitTorrent significa "torrente de bits", e esse é o segredo de seu sucesso. O sistema de transferência de arquivos criado pelo programador americano Bram Cohen cinco anos atrás chegou à incrível marca de 150 milhões de usuários porque oferece muita rapidez nos downloads. Diferentemente das primeiras tecnologias para a troca de músicas, como o Napster, o BitTorrent foi criado para que usuários pudessem trocar entre si arquivos pesados. Um episódio do seriado de TV Lost, por exemplo, é algumas dezenas de vezes maior do que um MP3. Mas, com uma boa conexão de banda larga e o sistema criado por Cohen, a transferência de um desses episódios pode durar menos de 1 hora. Quanto mais popular o conteúdo trocado pela rede BitTorrent, mais rápido o download. Isso fez com que o sistema se tornasse um reduto perfeito para seriados de TV campeões de audiência -- e criasse um enorme problema para as emissoras e para aqueles que tentam ganhar dinheiro com vídeo online.

Congestionamento na rede
O BitTorrent é ideal para a troca de arquivos grandes, como filmes e programas de TV. Veja alguns números :

-Mais de 150 milhões de computadores têm o software instalado
-Até 90% de todo o tráfego da internet é ocupado por arquivos que circulam na rede BitTorrent
-Pelo menos 1 milhão de cópias de seriados populares, como Lost, são trocadas ilegalmente a cada dia
-O site Mininova tem 12 milhões de arquivos listados e prontos para download a qualquer momento


EXISTEM VARIAS INICIATIVAS de venda de episódios sob demanda ou de exibição de conteúdos patrocinados. A Apple saiu na frente com sua loja iTunes e hoje é a líder do segmento, mas acaba de perder o conteúdo da rede NBC. O Joost, dos mesmos criadores do Skype, foi lançado com grande estardalhaço no início do ano, mas até agora não conseguiu conquistar o conteúdo -- nem a audiência -- que todos esperavam. Até mesmo o tradicional varejista Wal-Mart, que detém 40% das vendas de DVDs nos Estados Unidos, quer um pedaço do negócio. O problema é que a agilidade do BitTorrent, aliada ao preço -- gratuito --, tem tornado a vida desses concorrentes muito difícil, diz James McQuivey, da consultoria Forrester Research. "O mercado de venda de vídeos avulsos é uma rua sem saída", afirma McQuivey. O mercado, que ainda não passa de 300 milhões de dólares por ano, de acordo com McQuivey, corre o risco de nunca ganhar fôlego.

Bram Cohen, criador do BitTorrent, obviamente diz que sua intenção ao inventar o sistema de distribuição não era incentivar a pirataria -- tanto que a empresa que ele fundou para distribuir o programa oferece desde o início do ano a venda de conteúdos de vídeo. Uma cópia permanente de um programa de TV custa em média 2 dólares, e uma versão temporária de um filme, de 3 a 4 dólares. Mas os sistemas de proteção anticópias que apagam os filmes após determinado período afastam muitos usuários, e o BitTorrent segue lembrado mais pelas possibilidades de pirataria do que por seu lado legal. O próprio Cohen já admitiu que as proteções digitais são um problema. "Não ficamos satisfeitos com as implicações para a experiência dos usuários. É uma coisa infeliz. Gostaríamos de nos livrar de tudo isso", afirmou ele numa entrevista ao The New York Times. A transformação de herói dos piratas em aliado da indústria não é o único traço peculiar da personalidade de Cohen. Ele sofre do transtorno de Asperger, espécie muito leve de autismo que lhe rouba algumas habilidades sociais, mas aumenta o poder de concentração -- algo de valor inestimável para um programador. Cohen também é aficionado de jogos matemáticos, e num vídeo recente ele discute a fundo o cubo mágico, comparado por ele a uma droga capaz de causar dependência.

O INVENTO DESSE PROGRAMADOR americano de 32 anos tem duas características que as alternativas legalizadas não conseguem superar. A primeira é a de ser uma espécie de gravador digital mundial, um TiVo para todos. Perdeu seu programa predileto na TV? Basta procurá-lo no dia seguinte e ele estará lá. A segunda é o fim das fronteiras. O modelo de negócios das emissoras é baseado na liberação gradual dos programas originais. Eles estréiam no país de origem, depois são revendidos para TVs de outros países, num longo e elaborado cronograma que muitas vezes culmina no lançamento de uma caixa de DVDs. No BitTorrent oficial, certos programas só podem ser vendidos para clientes americanos. Na rede pirata, esse controle não existe.

Enquanto a indústria do entretenimento não consegue uma inovação tecnológica ou comercial capaz de enfrentar o problema, a solução tem sido a intimidação ou a simples censura -- com a ajuda das grandes operadoras de telecomunicação. Os torrents são arquivos grandes e aumentam as demandas por investimento em infra-estrutura. Em agosto, assinantes da operadora de cabo americana Comcast reclamaram em blogs ter dificuldade para transmitir torrents. Queixas semelhantes já foram feitas por assinantes da Telefônica, em São Paulo. As duas operadoras negaram dificultar o acesso em suas redes. Outra arma são os processos contra os sites que organizam e fazem buscas de torrents. Num dos casos mais rumorosos de que se tem notícia, a sede do site The Pirate Bay, na Suécia, foi invadida pela polícia local -- a pedido da associação que reúne os grandes estúdios de cinema americanos. Equipamentos foram confiscados, e os três jovens responsáveis pelo site respondem a processos em seu país. Três dias depois, porém, o site estava no ar. No início de setembro, o trio apresentou outro desafio à indústria do entretenimento: relançou o Suprnova.org, que estava fechado havia quatro anos e foi um dos primeiros grandes sites a divulgar a tecnologia dos torrents. Junto com a nova página, veio o seguinte manifesto libertário: "Funciona assim. O que vocês afundarem, nós construímos de novo. Podem nos processar, teremos dez novos recrutas. Aonde quer que vocês forem, estaremos à frente. Vocês são o passado e os esquecidos. Nós somos a internet e o futuro". Por enquanto, os jovens suecos parecem estar cobertos de razão.

Sérgio Teixeira Jr / Revista Exame

Fonte : http://info.abril.com.br/aberto/infonews/102007/08102007-18.shl

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